Main menu:
Cultura Local > Páginas da História de Góis
BULHÃO PATO EM GÓIS
Bulhão Pato esteve uns dias em Góis, em 1868, convivendo com o Dr. António Paredes e seu irmão. Tinha então 39 anos.
Conta ele que, num final de tarde, vindo dos lados do Mártir, debaixo de trovoada, entrou na igreja matriz da vila, iluminada e com os sinos a dobrarem,
“Era uma menina de catorze a quinze anos, das principais famílias de ali, que ia a enterrar. Tinha morrido em três dias com um tifo. Velhos e moços choravam, enternecidos, a perda daquela pomba doméstica. Entrei na igreja, levado por uma disposição singular de espírito. Via-a na sua essa, coroada de flores, com o rosto sereno, dormindo o plácido sono da morte. As raparigas soluçavam no corpo da igreja. Quando terminou o ofício, serenou a tempestade e, ao sair o enterro, a lua assomou no céu. Vim para casa.
A mulher que nos serviu tinha criado aquela menina, e queria-lhe com extremo. Chegou-se a mim e disse-me, lavada em lágrimas: ‘O senhor que é poeta (textual) bem podia fazer uns versinhos à morte da minha rica menina’. Compungiu-me a pobre mulher.
Eis a origem d’essas quadras:
Cessaram os cantos fúnebres, / E quando o enterro saía / Da tempestade do monte / O trovão já não se ouvia.
As raparigas chorando / Ao vê-la passar diziam: / – “Lá vai o enlevo dos olhos / De quantos a conheciam!
“Era a rosa d’estes sitios: / À mortiça luz do círio, / No seu caixão deitadinha, / Já não é rosa, é um lírio!
“Os pobres seus protegidos / Que hão-de eles fazer agora!...” / Serão melhor socorridos, / Tem no céu a protectora!
É tão ditosa dormindo / Aquele sono profundo! / Dorme nos braços dos anjos / Que a levaram d’este mundo!
Botão ceifado na terra / Quando apenas entreabria, / Refloresce à luz etérea / Na mansão do eterno dia!
Oh! se a saudade não fosse / Tributo desta existência, / Quem não veria com júbilo / Deixar o mundo a inocência!
(...)
Quando ia descer à cova, / A lua no céu brilhou, / E rompendo entre os ciprestes / O rosto à morta beijou.
Assim nas noites de maio, / Ao lírio pendido já, / Em saudosa despedida / Um beijo d’amor lhe dá!
(...)
Depois mudo o cemitério / E apenas de quando em quando, / Ondulavam os ciprestes / O sono à morta embalando!
Goes, Setembro de 1868”
Quem seria esta rosa de Góis? Sei apenas que a senhora referida pelo poeta se chamava Eugénia.
Poeta e prosador, Bulhão Pato foi um dos últimos representantes do romantismo em Portugal. Espontâneo e apaixonado, faz parte da segunda geração romântica, que tinham como mentor a personalidade de Castilho. Eram os ultra-românticos, tal como o foram Tomás Ribeiro, Soares dos Passos, Pinheiro Chagas, Mendes Leal e outros mais, que constituíram uma corrente literária após o triunfo do Liberalismo, que se manifestou sobretudo nos anos cinquenta e sessenta, a que chamariam de Literatura Oficial, pela sua acomodação ao sistema político-cultural vigente, dele colhendo benesses e cedendo às imposições do público.
Há um sentimento amoroso predominante nesta poesia ultra-romântica, formal, de métrica correcta, enfática, por vezes piegas, destituída de capacidade de inovação estética, como que destinada a decoração de serões sociais.
Sobre Raimundo António de Bulhão Pato, seu nome completo, escrevia Júlio Dantas:
“É também caçador ousado, de casaco de veludo e grande sombreiro castarenho, batendo perdizes nos montes e correndo lebres nos espargais (...) Não há português que não tenha comido, ao menos uma vez na vida, “lebre à Bulhão Pato”. Porque fiquem os senhores sabendo, se não o sabiam ainda, que o grande poeta é um cozinheiro ilustre (...) A cozinha de Bulhão Pato é toda de emoções e de colorau picantes, uma cozinha declamatória e grandiosa, cortada de especiarias e drogas (...) As suas líricas parecem um desfilar de pedras preciosas: as suas tradições de caçador honrariam a memória do Farrobo; a sua lenda de D. Juan faz ainda hoje corar muita doce velhinha de cabelos brancos. Mas uma das maiores paixões de Bulhão Pato é sem dúvida a cozinha, essa cozinha portuguesa, fradesca e solene, que faz ao mesmo tempo, artríticos e heróis (…) um carácter fugido à grande onda amorfa dos incaracterísticos”.
Mais tarde, alguém que não consegui descortinar quem, talvez um ilustre e desconhecido gourmet com intuição para o negócio, deixaria para o futuro o seu nome nos cardápios da nossa restauração típica, com as “ameixas à Bulhão Pato”, o que talvez fizesse soltar ao nosso poeta, uma das suas sonoras gargalhadas, se porventura pudesse agora aparecer.
Com a sua morte em 1912, desapareciam os últimos ecos do romantismo em Portugal. Mas quando o vejo retratado no grande óleo pintado por Miguel Lupi – actualmente exposto no Museu Nacional da Arte Antiga, de grandes barbas e bigodes (“juba holina de prata oleosa, ampla testa espiritual e grave, olho arguto de águia, envergadura poderosa de valente, medula educada pelas rudezas da caça”), com um sorriso um tanto irónico, vestido a rigor de caçador e armado de grande caçadeira – não posso deixar de o imaginar nas suas caçadas e pescarias em Góis, poetando pelas Quinta da Lavra e Quinta da Capela, facto de que a imprensa fez algum eco.