Movimento Cidadãos por Góis - cultura


Go to content

Main menu:


Do Cerrado à Seara

Cultura Local > Páginas da História de Góis

Do Cerrado à Seara


Inícios dos anos noventa do século XIX.

Já se tinha endireitada e alargada a rua que ia da Ponte Real à Praça. E, do norte desta (que, mais tarde, a baptizariam de República) rasgara-se uma saída para permitir uma nova estrada, que, saindo do Cerrado, atravessava o Pé Salgado, apartando a Lavra dos Linhares, e nos levava até à Seara.
Em breve, seria o passeio predilecto de muitas famílias de Góis. Como nos descreve, na imprensa local, quem na sua meninice vivera esses tempos:

«Enriquecido com a chamada fonte do Pé Salgado, muito poucas famílias havia então na vila que, ao anoitecer, não se dispusessem a sair de casa, principalmente na quadra de verão, para fazerem o seu passeio favorito e dessedentarem-se com as tradicionais “limonadas” ou “sodas”, quando não preferiam “matar a sede” com um bom copo cheio da puríssima e fresca água que a fonte lhes oferecia em “ares” de bizarra abundância.
Era mesmo frequente ver-se entre a assistência algumas famílias de fora, principalmente da vizinha Várzea de Góis, que, aproveitando os seus luxuosos “tonneaux” e “charrettes”, vinham, à tardinha, até Góis, em agradável passeio, ao qual havia a juntar o incomparável regalo de se refrescarem com a afamada água, sempre bebida por entre exclamações de entusiástica admiração pelas suas invulgares qualidades de pureza e frescura.
Nesse tempo, o pedaço de estrada que vai de Góis até à fonte, oferecia-nos o delicioso aspecto de fresco e ridente jardim, tal era a exuberância de roseiras e outros arbustos das mais variadas florescências com que a paciência, zelo e bom gosto do cantoneiro José Simões – o pândego – dispôs, tratou e conservou, até à sua invalidez, os dois renques que ladeavam a estrada, como se fora florida a extensa avenida.
Explica-se assim a causa por que esse trecho de maravilha passou a constituir o passeio predilecto da “elite” de Góis, em pleno prejuízo da alameda do Cerejal, que, apesar da sua copada arborização, formando compacto tecto de verdura, foi, desde então, votado ao mais cruel abandono, todos aguardando em suas casas o declinar do dia para não se aproveitarem da deliciosa sombra das amoreiras e outras árvores de grande porte que ainda a povoam, mas sem de modo algum faltarem ao tentador prazer diário que lhes proporcionava o “rendez-vous” junto da mágica fonte do Pé Salgado.
Em algumas tardes de domingo ou de dias santificados, as duas filarmónicas locais ali exibiram os melhores trechos musicais dos seus reportórios, e, conquanto a vila sofresse já ao tempo as consequências das tenazes lutas partidárias de que foi teatro, a verdade é que a população “algo” retraída e como que medrosa de comparecer, lá acorria quase em massa, apesar da iminência de severa reprimenda por haver concorrido possivelmente para relativo brilho de parada, abrilhantada pela “música”, mantida ou amparada pela política contrária.»

Não tardaria que a nova avenida passasse a bairro residencial.
Ao longo da primeira década do novo século, construíam-se as primeiras vivendas, que marcariam também o início de um novo tipo de arquitectura na vila: primeiro, as das famílias Polaco Cerdeira e Barata Cortez (aquela adquirida, uns anos após, por Manuel Francisco Martins, esta, já nos nossos dias, por Albino Martins); depois, inaugurada com pompa e circunstância em Maio de 2008, a da família Torres Galvão (agora, transformada em lar de estudantes).

Com o falecimento daquele zeloso cantoneiro, desapareciam também os mimosos renques de flores que ininterruptamente ladeavam a estrada.
No meio das suas construções, na fresca manhã de sete de Junho de 1907, a rua era percorrida, pela primeira vez, por um Chefe de Estado, El-Rei D. Carlos, acompanhada da sua comitiva oficial, depois de terem ouvido, na Praça, os acordes de “A Carta”, então hino nacional, tocado pelas nossas duas garbosas filarmónicas, a Chata e a Cachimbana, que mereciam elogios de Sua Alteza.
Viria a República, e no ano seguinte, em 1911, baptizava-se esse pequeno bairro por Teófilo Braga. Mas Pé Salgado jamais deixaria de permanecer na memória das suas gentes.
Começava outra época. Em 1912, inicia-se a construção das instalações do Clube de Góis (mais tarde, Associação Educativa e Recreativa de Góis) e a instalação eléctrica substitui as poéticas chamas do gás. A pouco e pouco, o progresso invadia o novo bairro e os românticos debandavam para o Cerejal.


Pé Salgado em 1913

Apareciam depois os primeiros auto-móveis dos goienses e a nova avenida começava a adquirir um ar cosmopolita.


Carro nos anos 20

Em 1 de Novembro de 1989 seria descerrada a lápide “Rua Comandante Henrique Bebiano Baeta Neves”, por decisão tomada pela Câmara Municipal na sua sessão de 8 de Setembro desse ano. O Comandante Baeta Neves nascera em Góis em 19 de Outubro de 1890 e ali morrera em 1956. Oficial da Armada e engenheiro hidrógrafo, foi uma das mais distintas figuras da ocupação científica do então Ultramar Português, nos domínios da geodesia e cartografia, sobretudo em Moçambique, onde passou os seus últimos vinte anos.
Um goiense de prestígio, que assinala bem essa época do passado da vila.


Abertura | Música | Literatura | Artes Pásticas | Cinema | Cultura Local | Site Map


Back to content | Back to main menu