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Música
Estilo Musical
É a maneira pela qual compositores de época e países diferentes combinam simultaneamente os diversos elementos musicais importantes, que são chamados de componentes básicos da música.
Apresentação desses elementos básicos:
Melodia: sequência de notas de diferentes sons, organizadas numa determinada forma, de modo a fazer “sentido musical” para quem escuta.
Harmonia: ocorre quando duas ou mais notas de diferentes sons são ouvidas ao mesmo tempo,
produzindo um acorde.
Acorde: podem ser consonantes, notas concordam umas com as outras ; podem ser dissonantes, notas dissonam em maior ou menor grau.
Ritmo: diferentes modos de agrupar os sons musicais, do ponto de vista da duração dos sons e de sua acentuação.
Timbre: qualidade de som de cada instrumento, o que pode ser chamado de “a cor do som”. A sonoridade característica de um instrumento é que nos faz reconhecê-lo imediatamente.
Forma: configuração básica de uma obra musical .
Tessitura: aspecto da música. Algumas apresentam uma sonoridade bem densa, que fluem com facilidade, e outras mostram-se com os sons mais rarefeitos e esparsos, produzindo um efeito penetrante e agressivo.
Estilos Musicais
Bebop
Nesta mesma época, durante a Segunda Guerra Mundial, nascia um novo estilo diferente dos modelos clássicos de jazz.
Caracterizado por sofisticação harmónica e complexidade rítmica, o bebop foi criado e difundido por Charlie Parker (1920-1955), um saxofonista nascido e criado em Kansas City.
Parker se estabeleceu em New York e após 1944 começou a atrair a atenção do público para 52nd Street de Manhattan, conhecida como "Swing Street", na qual se concentravam os principais clubes e talentos do jazz.
Bird, como Parker era conhecido pelos fans, como um improvisador fantástico, com imaginação e técnica perfeitas. Seu modo de tocar era algo novo no mundo do jazz . A influência que Charlie Parker exerceu nos músicos só se compara aquela exercida por Louis Armstrong.
O bebop era uma música feita para ouvir e não para dançar, tocada por um pequeno número de músicos talentosos. Apesar disso, existiam algumas big bands tocando bebop, como a de Dizzy Gillespie e Woody Herman.
O surgimento do bebop desperta e reacende o interesse em New Orleans e por outras formas de jazz tradicional, unificando o estilo Jazzístico e seus músicos, permanecendo por muitos anos.
Blues
O termo 'Blues', nos anos 30 e 40 do século 19, significava estar cansado da monotonia.
Mais tarde, junto com os escravos negros trazidos do oeste africano para o sul dos Estados Unidos, vieram as raízes do que nós conhecemos hoje como o Blues.
Os africanos trouxeram um instrumento chamado banjo. O primeiro era feito de uma espécie de abóbora, um pedaço de madeira e cinco cordas. O banjo, apesar de não ser o instrumento que formou o Blues, contribuiu para o desenvolvimento das técnicas que antecederam ao estilo.
O jeito afro-americano de cantar precisava de um instrumento para o seu timbre mais baixo e um ritmo mais lento. Surgiu então, o violão, um instrumento relativamente barato, de fácil transporte e podia ser tocado com vários outros instrumentos
Bossa Nova
Movimento musical que teve início nos anos 60, sendo que a melodia, a forma rítmica e harmónica já existiam no Rio de Janeiro desde a década de 50.
Alguns compositores e músicos, cansados da forma tradicional do samba, começaram dar uma concepção mais moderna às composições, chamando esta nova concepção de samba sessions. Grande parte dos músicos que participaram deste movimento eram apreciadores do Jazz e por esta razão, a improvisação, que é uma característica básica do Jazz, foi introduzida na então Bossa Nova. A música aos poucos foi mudando sua forma harmónica e novas composições foram surgindo baseadas na improvisação do samba.
Bossa Nova significava dizer "qualquer coisa nova e diferente".
José Alfredo da Silva, conhecido como Johnny Alf, pianista, cantor e compositor, tocava um estilo de samba completamente diferente dos demais. Sua harmonia e maneira de distribuir os acordes eram extremamente modernas. Em 1951, Johnny Alf compôs "Rapaz de Bem", primeira composição de Bossa Nova a ser gravada em 1955.
Country
As canções dos escravos, as canções religiosas do Sul dos Estados Unidos, a dos trabalhadores do campo e as velhas canções inglesas somadas aos instrumentos rústicos como o Banjo, Mandolin, Rabeca, Violão, Washboard ..., deram origem a este género musical.
As primeiras gravações de música country datam de meados de 1922, quando a gravadora Victor lançou no mercado norte americano o som de Uncle Eck Robertson e Henry Gilliard.
O grande nome da música country foi Hank Williams, autor do clássico Jambalaya que é considerado em todos os países do mundo como a música que mais representa esse estilo.
Hank Williams morreu ainda jovem, aos 30 anos, e suas músicas até hoje são regravadas e executadas em todo mundo.
O country teve o cinema como grande influenciador deste estilo com Roy Rogers, John Wayne e Clint Eastwood. Mais recentemente John Travolta e Mel Gibson.
No Brasil, Bob Nelson foi o precursor do estilo country nos anos 60, embora o movimento country no Brasil surgiu no final da década de 70, em casas noturnas, e com bandas como WoodPecker Bros - Irmãos Pica Pau, Banda Colher de Pau, Tiroteio, West Rocky, Cowboy Group Troyano, Big Train Country Music, Banda São Paulo Country.
Fado
O fado é o símbolo musical do povo português. A palavra fado se origina do latim "fatum", que significa destino, o destino de uma pessoa que não pode ser mudado. O fado é uma forma de canto melancólico que tem como temas principais o amor incompreendido, o ciúme, a saudade do passado, a dificuldade da vida e o desgosto.
As origens do fado são controvertidas: uns acreditam que tenha surgido dos cânticos dos mouros; alguns dizem que ele apareceu em Lisboa por volta de 1840, trazido por marinheiros portugueses que contavam as aventuras de suas viagens e mostravam as relações entre o fado e as novas descobertas, a dor de deixar para trás seus amores sem saber se voltariam a salvo. Estas aventuras poderiam ser o ponto de partida para as canções cheias de melancolia e sentimento. Outros acham que ele se originou da música brasileira, como o "ludum" dos escravos e a modinha muito apreciada em Lisboa nos anos de 1700. De qualquer modo, o fado surgiu em Lisboa e no Porto, sendo levado depois para Coimbra por estudantes universitários, adquirindo características diferentes.
Os cantores e cantoras de fado normalmente se vestem de preto, as mulheres usam um xale e são acompanhados por guitarras portuguesas. Os fadistas fazem de sua voz seu meio de vida; são pessoas de talento que trabalham duro e fazem o melhor para elevar o prestígio da música de Portugal em todo o mundo.
Entre os fadistas mais conhecidas estão Maria Severa, , Carlos do Carmo e o guitarrista Carlos Paredes.
Fusion
Herbie Hancok e Chick Corea (1941) exploraram o que se tornaria o estilo fusion, porém nunca abandonaram a tradição do jazz.
Este estilo teve importância fundamental, pois atraiu plateias mais jovens que puderam conhecer os grandes músicos do jazz, levando a tecnologia, por meio de samplers e teclados electrónicos, ao Jazz.
Em 1979, de forma um tanto quanto inesperada, mas com simetria histórica perfeita, uma nova onda de jovens jazzistas talentosos emergiu de New Orleans, liderada pelo brilhante trumpetista Wynton Marsalis (1961), que se uniu ao Art Blakey's Jazz Messengers, um baluarte da tradição bebop que rejeitou o fusion e insistiu no jazz tradicional.
Vários outros músicos talentosos estão surgindo na última década . Muitos deles firmaram suas raízes no bebop, e outros voltaram ainda atrás, revivendo o swing.
Hoje, a liberdade de composição e performance é plenamente executada por vários músicos talentosos de Jazz.
O importante é que a grande maioria, mesmo quando tende ao experimental e à inovação, mantém intacta a linguagem do jazz.
Hip-Hop e Raps
Por volta de 1968, o negro Afrika Banbaataa estabeleceu e difundiu este estilo, inspirado na cultura dos guettos norte-americanos e na forma de dançar mais popular da época , na qual deu origem ao nome Hip-Hop, HIP-movimentar os quadris e HOP-saltar.
Na década de 60, surgiram grandes líderes negros como, Martin Luther King e Malcon X, que lutavam pelos direitos humanos . Este movimento influenciou, em muito, os primeiros praticantes do Hip-Hop que dançavam músicas que eles intitulavam de "RAPS", base musical dançante acompanhado de rimas faladas que davam o ritmo, sendo as mensagens das letras de alto teor político-social.
Jazz
Em relação às origens do jazz, sabe-se que ele foi trazido da África pelos escravos, que modificaram sua cultura e criaram uma nova forma de comunicação e de música.A música negra na América manteve muito da origem africana em seus elementos rítmicos característicos e também na tradição de colectividade e improvisação.Esta herança se misturou com a música local, gerando muito mais que um novo estilo, uma nova forma de expressão musical. A mais importante, são as manifestações religiosas, o que hoje é conhecido como música Gospel . Outras formas musicais da época da escravidão, são as músicas de trabalho e músicas infantis.Vale lembrar que a actividade musical era proibida entre os escravos, e com a libertação, a música afro-americana cresceu rapidamente, permitindo o nascimento das raízes básicas do jazz: as bandas de metais, a dança e o blues.JAZZ, que no início se soletrava "jass", nasceu na última década do século XIX, nos bairros de classe média negra nas cidades do sul dos Estados Unidos.Assim como o ragtime, o jazz era uma música feita para dançar.Neste período inicial, a cidade que se tornou sinonimo do jazz foi New Orleans. Porém, não se pode esquecer da participação de outras cidades sulistas como, St Louis, Memphis, Atlanta e Baltimore.Os músicos destas bandas de jazz eram na maioria das vezes artesãos que faziam música nos feriados e finais-de-semana para aumentar a renda familiar. Estes músicos, ao contrário do que se pode pensar, possuíam um grande conhecimento de teoria musical e desenvolveram um modo de tocar seus instrumentos totalmente original . Joseph Oliver utilizava vários objectos como copos, baldes e desentupidores para extrair os sons mais variados de sua corneta.Já no início da década de 1910, a formação básica das bandas de jazz era: corneta (ou trompete), trombone, clarinete, guitarra, baixo e bateria .Os pianos eram raros, dada a dificuldade do transporte. O banjo e a tuba só foram adoptados posteriormente, pois as técnicas de gravação não permitiam captar o som da guitarra e do baixo.Os primeiros improvisadores de jazz foram os clarinetistas, dentre eles, Sidney Bechet (1897-1959). Bechet mudou do clarinete para o saxofone soprano, e se tornou um dos jazzmen mais importantes internacionalmente, visitando a Inglaterra e a França, em 1919 e Moscou, em 1927.O primeiro a utilizar o nome "jazz" para a música que fazia foi o trombonista Tom Brown, que liderava uma banda em New Orleans.A origem da palavra é obscura, e seu significado original foi, e é, motivo de muita discussão.A primeira banda de jazz a realizar gravações foi a "Original Dixieland Jass Band", que fez sucesso em New York, entre 1917-1918.Com a Primeira Guerra Mundial, houve um "boom" industrial no norte e muitos músicos, negros e brancos deixaram New Orleans, assim como outras cidades do sul, em direcção ao norte dos Estados Unidos. O norte atraiu enormes massas populacionais, incluindo jazzmen que ansiavam por melhores condições de emprego.Nos anos 20, Louis Armstrong fez enorme sucesso e foi quem ditou a linguagem do jazz da década seguinte.Com a Depressão de 1929, o Jazz, assim como todos os sectores da vida americana, sofreu com as altas taxas de desemprego e grande quantidade de jazzmen abandonaram as bandas para procurarem outros empregos com mais oportunidades.Mesmo assim, o Jazz sobreviveu e Louis Armstrong teve papel fundamental, relançando sucessos com apelo popular em seu inconfundível estilo jazzístico . Outros, como Fats Waller e Billie Holiday seguiram a mesma linha.
Swing
A partir da década de 30, surge um novo tipo de música, mais romântica e mais "quente" para dançar, o swing.
No início da Era do Swing, os que se destacaram foram o trumpetista Roy (Little Jazz) Eldridge (1911-1989) e o saxofonista Leon (Chu) Berry.
Outro personagem importante foi Chick Webb (1909-1939), um baterista pequeno e corcunda, dotado de grande energia e por muitos considerado o melhor baterista da história do jazz. Sua banda tornou-se muito famosa em 1935.
Porém, foi Benny Goodman que se tornou o "bam-bam-bam" do swing. No início, seu projeto não foi muito bem recebido, mas a partir de meados de 1935 sua banda passou a ser aclamada pelo público.
Veio a Segunda Guerra Mundial e, com ela, as viagens se tornaram mais difíceis . Muitos músicos de peso das importantes big bands, foram convocados para a Guerra.
O mais importante é que o gosto musical do público estava mudando.
A plateia parecia estar preferindo baladas românticas ao swing dançante.
Simultaneamente à decadência das big bands emergia um novo estilo que mudaria a história do jazz, o Bebop.
Ragtime
No final da década de 1880, havia bandas negras de metais em praticamente todo o sul dos Estados Unidos, enquanto no norte, a música negra seguia mais as tendências européias.
Foi neste período que o ragtime começou a surgir e, embora seja basicamente um estilo para piano, as bandas de metais começaram a tocá-lo.
O Ragtime, que mais tarde seria chamado de JAZZ, era o divertimento da classe média, sendo pouco apreciado pelos eruditos.
A Era de Ouro do Ragtime se estende de 1898 até 1908 e o maior representante deste estilo foi Scott Joplin (1868-1917).
Reggae
Reggae é uma forma musical que apareceu primeiramente no começo da década de 60, na Jamaica.
Esse país foi povoado por europeus e escravos africanos. Essa miscigenação gerou músicas quentes e de ritmos fortes.
No final dos anos 60, o Movimento Rastafari, com seus cânticos de repetição rítmica e tom de protesto, gerou o movimento musical reggae, que passou a usar o Baixo e a Bateria em primeiro plano.
O reggae era na época considerado por muitos coisa de rua, sem importância, até que o genial Bob Marley deslanchou seu talento e juntamente com Jimmy Cliff e muitos outros músicos jamaicanos transformou o reggae no grande e inovador estilo musical da cultura jamaicana
Rock'n Roll
A estrutura rítmica e melódica do rock'n roll teve origem nos negros, escravos, trazidos da África para as plantações de algodão dos Estados Unidos. No início do século XX, os cantos entoados pelos negros durante o trabalho dariam origem ao Blues, que era basicamente vocal acompanhado por violão. Já nas grandes cidades era tocado o Jazz, por bandas maiores e arranjos mais elaborados, com percussão e instrumentos de sopro.
Nas igrejas evangélicas, tocava-se a música gospel negra, caracterizada por um ritmo frenético mas sensual, acompanhada por piano ou órgão.
A tensão social e racial da época favoreceu o encontro entre a música negra, o blues, e a música branca, o jazz e o country, surgindo o rhythm and blues.
Com o fim da Segunda Guerra Mundial e com os Estados Unidos em pleno crescimento económico capitalista o consumo era factor principal para geração de empregos e divisas buscando novos mercados consumidores. Nesta época, os jovens brancos começaram a buscar na música negra, nos guetos, algo diferente. Com o poder aquisitivo mais alto da população das grandes cidades a indústria fonográfica passou a investir neste novo estilo aliando a ele uma imagem que pudesse ser vendida mais facilmente. Lançaram, então, versões de música negra regravadas por artistas brancos e, por pressão do público, as canções de amor deram lugar a letras mais picantes e ousadas em que as vezes era necessário criar versões mais atenuadas de alguns versos mais directos.
O "inventor" do termo rock and roll e grande responsável pela difusão do estilo foi o disk jokey Allan Freed, homem da rádio de programas de "rhythm and blues" de Cleveland, Ohio. Em 1951, começou a promover festas de dança com o mesmo nome, movidas inicialmente a blues e rhythm & blues e mais tarde pelo novo ritmo, o qual ajudou a definir e divulgar. Suas festas, embora com muitos tumultos que lhe custaram dezenas de processos por incitação à violência, eram um grande sucesso.
Fado de Coimbra
Canção de Coimbra - Breve Sumário de um certo encantamento
À semelhança do que se diz do Direito Romano, também o Fado de Coimbra começou por não o ser. Certo que desde sempre, particularmente desde meados do século XIX, os estudantes que deambulavam pelo velho burgo coimbrão, libertos da sonolenta leitura das apostolitas ou das filiais sebentas, iam arrancando à viola toeira, no alinhamento paralelo dos arames, pungentes trinados que sublinhaão de amores sob janelas suspensas de mistérios. Não chegara ainda o tempo dessa forma de folclore urbano que a gosto ou a contragosto de estudiosos se consagrou como Fado de Coimbra, para exaltantes promessas de amor em noites enluaradas.
Quevam canções em voga. Os gorgeios e trinados não deixariam de ter destinatárias, mas não era ainda a deambulação nocturna para afirmaçr a matriz viesse nas arcas encoiradas dos estudantes brasileiros, quer conformasse nostálgicas recordações dos lisboetas que romavam à cidade mondeguinha, quer assumisse tintagens de mediavalesco trovar por um vinculo transcultural, se não conflituarmos a estrutura tonal do fado com a modal do cancioneiro medievo, morre nas discussões académicas o rigor das origens e apenas se pode certificar que espraiava o ultra-romantismo os seus ais no desfilar sofrido dos corações, corria a década oitocentista de setenta, quando a guitarra soltou os primeiros gemidos nas margens do Mondego e com ela talvez o balbucinar das ancestrais manifestações geradoras do fado coimbrão.
Com o aparecimento da guitarra alongava-se em esforço de definição um estrutura melódica que não clivava ainda com a tradicional melopeia do batido fado lisboeta. Um ou outro escolar ensaiaria uma estrutura mais erudita, do lied ou da sonata, mas seria em híbridas e ao mesmo tempo lineares formas de comunicação de um certo tipo de sentimentalidade amorosa que os rapazes da acadima derimiam em noites de boémia as tristezas que se escorrAugusto Hilárioem das horas mortas.
Talvez tenha sido essa vivência que marcou a passagem de Augusto Hilário, a quem Pascoaes chamou o Pontífice Máximo da Boémia. O jovem viseense, aspirante a João Semana, preferiu a guitarra e a serenata às artes de facultativo, arrancando ais prolongados que traziam "à recorda o sábio Egas Moniz em A nossa casa, ao desfilar os verdes anos.
Viver Coimbra era madrugar numa temporalidade de paixões impossíveis, evidenciar no canto os males de amor e a sacralização da amada. Melodia simples, quadras de sete silabas, pendor melancólico , decadente, com a morte a sobrevoar a dominância temática. Assim versejava Hilário e assim vertia para o canto, com a acanhada guitarra sobre os joelhos, esguio e olheiro, a insinuar paixões nos ais intermináveis, percutidos nos suspiros das donzelas.
Memorável a sua passagem pelo teatro D. Maria II, nos idos de Março de 1895, em sarau de homenagem a João de Deus. Nessa noite, pôs ao rubro a plateia com "os seus famosos fados de estilo original e a sua linda voz", como regista nas Memórias o actor Chaby Pinheiro.
Hilário é a primeira referencia individual do fado-serenata. Pelas ruas do velho burgo coimbrão, em noite de festa, os estudantes agrupavam instrumentos e cantares, mas não encontramos noticias de um trovador singular. Em 1880, quando das comemorações camonianas, a academia celebrou uma serenata, de que se fez eco O Conimbriense. Mas serenata com uma estudantina, com descantes à mistura
Moço ainda, aos 32 anos, a 3 de Abril de 1896, Hilário morre em Viseu, pagando nas fragilidades do corpo as prodigialidades da alma, lançado o mito corporiza-se nas entoações do Fado Hilário, maioridade interpretativa de todo o cantor coimbrão que se preze.
As estudantinas multiplicaram-se. Destaca-se a voz de Avelino Baptista, mas logo outros nomes, novas vozes, algumas a poderem chegar a nós em registos fonográficos. Manassés de Lacerda distingue-se então entre quantos na Lusa Atenas fazem da noite refugio para entoações românticas. Com ele se vai cruzar Alexandre de Resende, brasileiro que nunca frequentou a Universidade mas se vinculou como autor e interprete, sendo dele o célebre Fado do Meu Menino, que às vezes circula com outras paternidades, menino d`oiro a ser levado ao céu, enquanto pequenino, para com os anjos aprender a arte de cantar.
Tomam corpo as composições com duas quadras de sete silabas, geralmente não relacionadas no assunto, precedidas de uma breve introdução de guitarra, com os tons dominantes da melodia, e a funcionar depois como separador das quadras, modelo que persiste praticamente até os nossos dias
Abeira-se o tempo de António Menano , voz romântica que ecoou em todo o país nas velhas grafonolas, cantando Passarinho da Ribeira, Solitário, Carta de Aldeia, Carta de Longe, Fado do Alentejo, entre dezenas de composições, acompanhado por seus irmãos Francisco Menano, Alberto e Paulo, em guitarra e viola, mas se notabilizou igualmente em famosas canções acompanhando ao piano. Os discos do Menano, dono de "uma voz excepcional, de uma suavidade e um encanto únicos, clara, límpida, de um excepcional valor mesmo nos pianíssimos...", são apreciados em todo o mundo, ganham especial relevo no Brasil e nas antigas colónias portuguesas de África. António Menano fez escola, era o próprio Fado de Coimbra, suave e romântico, nos temas e na dolência do canto. Pela mesma época, outros nomes deixaram rasto nas ruas da velha Alta, pela maviosidade do seu canto Roseiro Boavida, Agostinho Fontes, Alexandre de Resende...
Porem, é com Edmundo Bettencourt que a canção coimbrã ganha uma outra expressão, outra espessura. Na musica e nas palavras. O poeta fundador da Presença, o notável precursor de Poemas Surdos, telúrico, capacidade interpretativa, que vão encontrar na guitarra de Artur Paredes os pilares da radical mudança.
Temos por adquirido que o que definitivamente distingue o Fado de Coimbra de outras musicas urbanas é a nova maneira de afinar a guitarra e de a tocar que Paredes introduziu. Com ele morre o trinado à guisa de bandolim, corda a corda, substituído pela organização de acordes comprometendo uma nova utilização da mão esquerda. Mais que sublinhar a melodia cantada, a guitarra ganha identidade e cresce no tempo a defenir melodias outras, personalizada e vigorosa.
Bettencourt vai colher nas raízes populares cantadas que transforma em "gritos de cristal e oiro", como fixou Régio. Paredes cedo descobre que era preciso mudar a anatomia da guitarra para encorpar o som. Alarga a escala, eleva o nível dos pontos, aumenta a altura das ilhardas, "no objectivo de uma maior pureza de notas, isoladas ou em associação, e de uma necessária ampliação do campo de ressonância! (Afosno de Sousa), para uma estruturada organização harmónica. Ai choro com que o Paredes | As mãos dobradas em garra| Esfranagalhava a guitarra| Punha os bordões a estalar (Régio).
Os discos que Bettencourt gravou passaram a ser peças de referência para várias gerações, como viagem obrigatória de quem ruma a Coimbra passaram a ser as variações de Artur Paredes. Zeca Afonso, filho de um condiscípulo de Bettencourt, considera-o "o maior cantor de fados de todos os tempos", Afonso de Sousa, que privou como guitarrista e poeta com essa geração, exalta a sua importancia como renovador que esquecer cânones tradicionais, consagrou um novo estilo, arejando um ambiente artistico já muito recapitulado e, por assim dizer, monocórdico.
Aos anos vinte é comum chamar de Década de Oiro. Edmundo Bettencourt, Lucas Junot, José Paradela D'Oliveira, Armando Goes e Artur Paredes legam-nos um património de rara qualidade, marcaram uma época mas, acima de tudo, pelas diferenças de timbre vocálico e pela sensibilidade interpretativa, pela tessitura harmónica como pelo vazar em novos moldes poéticos, da redondilha ao soneto, vestiram a música coimbrã de novas roupagens que a tornaram reconhecivele apetecida, a que um novo ciclo epigonal segue o rasto com Serrano Baptista, LAcerda e Megre, Felisberto Passos e Xabregas no canto e na guitarra.
Para os anos cinquenta estava reservado o segundo momento alto, se bem que não devamos esquecer nomes como Lulião, Napoleão Amorim, Almeida Santos, José Amaral, Anarolino Fernandes, Augusto Camacho, Florêncio de Carvalho, Tavares de Melo, Ângelo Araújo e Carlos Figueiredo , na década anterior. A poética procura com nova sintaxe a temática dos olhos e olhar, do oiro dos cabelos, ondas do mar e ciúmes divinos ante a beleza da amada, a sempre presente sacralização da Mãe, quadras sustentadas pela leveza da estrutura melódica.
Dessa geração, é imperativo destacar esse outro grande inventor de sonoridades, João Bagão, quando já em Lisboa constrói algumas espantosas composições sobre oemas de Leones Neves, Edmundo de Bettencourt e de Luiz Goes, destinadas ao império vocal deste último.
A década de meados do Sec XX trouxe à música coimbrã uma outra luz. Pela poética como pela estruturação musical, ensaiam-se novas formas, rotomam-se temas populares, redefine-se a balada. Com Luiz Goes, para nós o maior de quantos passaam por Coimbra, não só pela voz fabulosa de Baríono como pelo virtuosismo interpretativo, a música de inspiração coimbrã atinge outra força, universaliza-se.
As suas gravações de Coimbra Quintet soam a revolução. Com ele, Machado Soares, José Afonso, Fernado Rolim, Sutil Roque e alguns mais, imprim-se um novo impulso no gosto e na difusão de música de Coimbra.
Pela mesma época, igualmente comprometidos na procura de novos caminhos, emergem músicos de qualidade como António Brojo, António De Portugal, José Godinho, Manuel Pepe, Levi Baptista e logo outro notável compositor e interprete, Jorge Tuna, guitarrista de exemplar rigor, sensibilidade e vigor cristivo, que encontrou na viola de Durval Moreirinhas a necessária complementaridade.
Partindo de sonoridades coimbrãs, marcada pelo sopro do génio, a guitarra de Carlos Paredes, continuada na revolução operada pelo seu pai, Artur Paredes, exponencializada enfim nas mãos insuperaveis de Carlos, que conferiu à guitarra o reconhecimento de uma outra dignidade.
Da década de sessenta, naturalmente as vozes de Alfredo Correia, Luis Marinho, Adriano Correia de Oliveira e António Bernardino, as guitarras de Andias e dos Melos, o sempre presente Durval na viola e as palavras de Manuel Alegre. Sob o mágistério de José Afonso e do primado da viola de Rui Pato, ressalta então um canto social e politicamente (de alguma maneira antecipado por Luiz Goes), comprometimento cívico que busca novos e auspiciosos caminhos, em trovas e baladas. A música perde as colorações coimbrãs, porque visa outros espaços de sociabilidade, é de outra esfera, embora não perca uma vinculação ao gosto interpretativo coimbrão.
Elencar, para todas as épocas, nomes, composições, estilos, não cabia na modéstia desta nota, breve sumário da história desse tocante veículo de comunicação de sentimentos e emoções, carregado de símbolos e mitos, sempre revisitado e a exalar frescura, contra o tempo e os silêncios, que é a música da cidade do Mondego. Não lhe caem os parentes na lama se chamarmos fado a muitas das suas formas cantadas, que assim têm caminhado e são reconhecidas...
De Coimbra fica sempre a inpiração e mitificação de nomes e lugares. Ao deslumbramento da chegada, segue-se a exaltada vivência, que é convivência, e mais encanto na hora da despedida, maneira de falar da sua permanência, recordação teimosa em quem lá viveu os verdes anos.