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Cultura Local > O Regionalismo
Génese
A Casa do Concelho de Góis editou um livro* comemorativo do seu recente 50º aniversário. Tratando-se de uma obra de memórias, dele nos servimos para proporcionar uma breve panorâmica da história do regionalismo goiense.
«Dos movimentos de migração interna que se verificaram no século XX, foram relevantes os de alguns concelhos rurais do Pinhal Interior Norte, os da Beira Serra, uma das zonas do país de maior fragilidade.
De características serranas, com escassos recursos naturais, de vida assente primordialmente numa agricultura feita em terrenos pouco férteis, os autóctones partiam à procura de melhores condições de vida, muitas das vezes inseridos numa estratégia para a sua própria sobrevivência.
Uns iam por períodos regulares, sazonalmente, em geral para os cultivos da Estremadura e dos Alentejos, regressando depois às suas terras durante o resto do ano, para repetirem o ciclo no ano seguinte. Eram os “ratinhos”.
Outros procuravam a região de Lisboa, onde seria mais fácil encontrar emprego duradouro, para restabelecerem a sua vida, num movimento que se iria realizar em cadeia, muitos deles mandando vir os seus conterrâneos, familiares ou amigos, através de redes informais, um processo a que Rocha-Trindade chamaria de “bomba aspirante” e que Miguel Torga bem expressaria:
“E, se a fome aperta, que remédio senão abalar! Em colónias, que é o grande tipo de emigração beiroa, o irmão a chamar o irmão e o primo a chamar o primo, não há sítio no mundo onde não chegue o seu braço. Qualquer trabalho lhe serve. Os de uma povoação são varredores, os da povoação vizinha engraxadores, os da seguinte barbeiros...”.Como outros mais seriam estivadores, aguadeiros, limpa-chaminés, “almeidas” ou moços de esquina, aqueles que, com uma corda ao ombro, nos cruzamentos das artérias mais movimentadas da capital, estavam prontos para todo o trabalho pesado que lhes fosse solicitado.
Ficam com uma ligação muito estreita aos seus locais de partida, onde normalmente deixaram casa e outros bens e, muitas vezes, parte do seu agregado familiar. Por isso, ali retornam com frequência, para conviver com a família e os amigos, passar férias, ou participar em festas e acontecimentos locais, nomeadamente em fins-de-semana.
Estes laços de afectividade que os ligam à sua terra vão perdurar durante toda a vida e frequentemente transmitem-se aos descendentes, que também participam neste vaivém entre cá e lá, acabando “por dar origem a uma nova forma de relação campo - cidade, numa dualidade de coexistência ou, se se preferir, de compatibilidade entre formas de viver e de actuar afastadas e diversas.”
É esta forte ligação à terra de origem, juntamente com o facto de continuarem a estar inseridos na sociedade local, que caracteriza este tipo de migrantes e os diferencia dos que partem para o exterior do país. Situam-se culturalmente em espaço duplo, no da sociedade de residência e no da sua terra de origem, o primeiro numa adesão consciente, imposta pela sua nova vida social, o outro por determinismo psicológico ou por sentimento.
A esse movimento, vai estar ligado um associativismo, sui generis em relação a movimentos migratórios de outras zonas do país. Vindo de um interior rural, aparentemente rudes e com poucas preparações académicas, sujeitando-se aos serviços mais duros, não se apresentava fácil a sua inserção em meio urbano. Tendo deixado na terra natal a família, é no associativismo que encontram um meio de estabelecer contacto com os conterrâneos, não apenas para convivência e solidariedade, mas também para defesa dos seus bens locais. E a intenção do regresso, quando as condições o permitissem, estará sempre presente.
Rapidamente se juntam em pequenas comunidades de sentimento, sonhando e projectando em conjunto.
Cada associação diz respeito a uma aldeia, a partir de um sentimento de pertença à sua comunidade de origem, o que lhe transmite grande força para a sua actividade. Formaram-se no início, é certo, associações cobrindo o espaço da freguesia, em zonas onde, na época, a pertença a esse nível espacial era forte, mas vieram com o tempo a desactivar-se, quando esse sentimento foi preterido pelo da aldeia natal.
Chamar-se-ia a esta associação migração/associativismo/ligação às origens, de regionalismo, um termo utilizado e interiorizado (com orgulho) pelos próprios agentes, um referencial para a sua vida colectiva, e que, por vezes, tem sido mal compreendido por pessoas que nele não se revêem ou não se encontram envolvidas.
Trata-se de um fenómeno que se vincula à identidade cultural, e não tanto à identidade social ou à identidade política. Se esta está associada à Regionalização, à formação de regiões administrativas, a identidade social, por sua vez, liga-se ao conceito geral de Regionalismo, um vocábulo vulgarmente usado na literatura sociológica e que se referencia a processos de identificação; àquele Regionalismo que os beirões expressaram no seu movimento reivindicativo, a partir dos anos quinze do século passado, definido em vários Congressos e artigos doutrinários aparecidos na imprensa, “...criar as rotas dum nobre destino dentro da Pátria (...), criar, orientar e fortalecer o espírito localista da sua província (...), manter bem viva a candeia votiva e ardente do seu eterno amor às Beiras...”.
Diferente é o “nosso” regionalismo. Enquanto Regionalismo se pode considerar, em certa medida, uma doutrina, contendo os princípios orientadores de acções de desenvolvimento e de valorização de uma “região”, o regionalismo é uma estrutura de sentimento, um estado de espírito, imbuído em práticas interculturais, num espaço de exteriorização colectiva das ligações dos emigrantes às suas origens, com as quais se identificam social e culturalmente. É “um estado de alma específico das gentes da Beira-Serra que escapa à compreensão dos dicionaristas”.
(…)
Para se ser regionalista não basta gostar da sua terra natal e colaborar, por solidariedade ou por prazer, no seu progresso. Ser-se regionalista é, para além disso, ser-se emigrante e, simultaneamente, fazer parte da sociedade de origem. É um “ausente-presente”, “com um pé cá e um pé lá”.
Por isso, o movimento regionalista está associado à migração interna. Os que emigraram para o estrangeiro, regressando de quando em vez para passar férias, dificilmente se incluem neste movimento, por, na prática, não pertencerem à sociedade de origem. Como, do mesmo modo, não são tidos como regionalistas os residentes locais que contribuem de uma forma abnegada e louvável para o progresso da sua terra, mesmo que estimulando a formação de associações locais de desenvolvimento ou de melhoramentos.
Cipriano Nunes Barata, sempre muito citado na literatura sobre esta matéria, soube com lucidez fazer esta distinção entre Regionalismo beirão (“...maneira de ver e sentir [que] tanto pode ser perfilhada e seguida por pessoas que habitualmente vivem em determinada ‘região’, como por indivíduos naturais dela, mas que razões imperiosas levaram para outras regiões”) e o “nosso” regionalismo, pondo a tónica nas suas duas componentes essenciais, a de migrante e a de pertença à sociedade de origem:
“...o verdadeiro regionalista será aquele que, sendo natural de determinada ‘região’, se viu forçado a abandoná-la por razões imperiosas, mas continua ligado à sua vida...”
(…)
Neste movimento, sobressaiu, desde o início, a sua voz reivindicativa junto do poder público, para a concretização de obras, geralmente infra-estruturas e equipamentos de base mais prementes. Deixava, desde modo, transparecer uma das suas principais preocupações, a melhoria das condições de vida das gentes que lá ficaram e o engrandecimento da terra natal.
Esta fase praticamente terminou, não porque não continue a necessidade de instalação de melhoramentos básicos, mas pelo facto de as autarquias hoje possuírem outros poderes e outros meios para os realizar, o que naturalmente fez diminuir a intervenção, neste campo, dos emigrantes. Agora parece prevalecer a opinião de que a sua acção deve ser orientada de preferência para as áreas da cultura, de guardião do património e do ambiente, de preservação da memória, das tradições e identidades locais, na base de uma inovação de atitudes e de valores, para além da promoção de solidariedade e convívio que, desde sempre, as caracterizaram.
Mas também, segundo a nossa perspectiva, nesta época de mundialização de culturas em que vivemos, o regionalismo, como movimento genuinamente popular que é, poderá ser equacionado como um contrapeso à acção globalizante que nos últimos tempos invadiu a sociedade e que, pouco a pouco, vai chegando às nossas aldeias.
(…)
O movimento regionalista, nascido no ambiente de desencanto que a República trouxera à sociedade portuguesa, de grande instabilidade social e de inoperância do poder local, vai materializar-se com a Ditadura Militar.
Surgiriam as colectividades regionalistas, mais conhecidas por “Comissões de Melhoramentos”, embora outras adoptassem diferentes designações, cada uma referida a uma localidade, por vezes a mais de uma, ou, até mesmo, abarcando uma freguesia inteira. E, depois, a respectiva Casa do Concelho, com o propósito, em parte, de lhes dar cobertura no espaço concelhio.
(…)
Estas serão algumas coordenadas do movimento regionalista que, em determinada época, começou a irromper no concelho de Góis, tal como em outros concelhos da região.
Movimento proveniente das condições de pobreza e solidão dos seus habitantes, vivendo desprotegidos em região montanhosa; proveniente de uma grande concentração de emigrantes em Lisboa, centro macrocéfalo do poder da nação; proveniente da fragilidade do poder local, incapaz de ocorrer às necessidades mais prementes da população; proveniente da situação política do país, em boa parte resultante da implantação da República, da Grande Guerra e do salazarismo; e proveniente também da nostalgia e saudade, sentimentos bem arreigados em populações serranas. De tudo isso terá sido um pouco.»
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* ”Memórias e Esperanças”, edição de 2004