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Literatura > Poesia
Medo ancestral
Há que perder o medo e combater
de peito feito e de cabeça erguida
todo e qualquer despótico poder
que nos pretenda controlar a vida!
Há que perder o medo de falar
que vem de muito longe, das raízes,
desde que o humano ser, sem protestar,
se sujeitou a alheias directrizes.
Há que perder o medo de sair
à rua e proclamar sem desistir
os ideais que estão na nossa mente.
Há que perder o medo de supor
que carecemos todos de valor
como se nem sequer fôssemos gente!
de João de Castro Nunes
Gosto do céu porque não creio que ele seja infinito.
Que pode ter comigo o que não começa nem acaba?
Não creio no infinito, não creio na eternidade.
Creio que o espaço começa aqui e aqui acaba
E que longe e atrás d’isso há absolutamente nada.
Creio que o tempo tem um princípio e terá um fim,
E que antes e depois d’isso não havia tempo.
Porque há de ser isto falso? Falso é falar do infinito
Como se soubéssemos o que só ver os podemos entender.
Não: tudo é uma quantidade de cousas.
Tudo é definido, tudo é limitado, tudo é cousas.
de Fernando Pessoa (Alberto Caeiro)
nem águas e nem março
é cal
é cedro
o fim do princípio
do resto do ninho
calvário de dor
é o nada é o tudo
assim tão sozinhos
é o valeé o toco
que sobram
do amor
é a casa vazia
é a palma
é o pé
é dezembro a chegar
dias de santa fé
é a minha tristeza
que brota
e caminha
se espalha
encantada
qual erva daninha
de Eliana Mora (carioca)